sexta-feira, 16 de maio de 2008

Efeitos secundários da radioterapia

"Se há factos determinados e inevitáveis na natureza, os efeitos secundários observados em doentes submetidos a radioterapia fazem certamente parte da lista. Mas dizer só que existem não é de modo algum esclarecedor do seu real significado, sendo esta a atitude corrente, provavelmente por ser demasiado simples, já que é puramente descritiva e não explicativa. Para entender a génese e o significado dos efeitos secundários decorrentes do uso terapêutico das radiações há que perceber o modo de acção das radiações ionizantes, os mecanismos da sua acção terapêutica e dos seus efeitos secundários. Os dois são zonas adjacentes de uma mesma escala. Os doentes submetidos a radioterapia estão sujeitos a dois tipos de efeitos secundários, designados de acordo com a altura do seu aparecimento: precoces e tardios.


Pele




Este é o órgão comum a todas as localizações tratadas com radioterapia externa, respondendo da mesma forma independentemente do local. Alguns factores locais ou gerais podem modular a intensidade e duração dos sintomas e sinais desenvolvidos, mas, a altura do seu aparecimento é quase uma constante, ocorrendo cerca de três semanas após o início da radioterapia.
De início, apenas é notável um ligeiro eritema concomitante à sensação de calor ou prurido. A evolução é com frequência para um eritema mais intenso com descamação, sem exsudação, acompanhada da exacerbação dos sintomas anteriores. A maior parte dos casos não sofre agravamento, sendo a medicação limitada à utilização de tópicos emolientes (pantenol), eventualmente com corticoide, embora este deva ser usado com precaução pois interfere nos mecanismos naturais de cicatrização, de cujo equilíbrio depende a integridade do organismo. A aplicação de violeta de genciana, especialmente nas zonas intertriginosas é eficaz para prevenir infecções secundárias, ajudando a manter estas zonas secas e limpas.
Raramente esta dermite evolui para uma forma mais grave, com aparecimento de exsudação, obrigando à interrupção da radioterapia. Nestas circunstâncias a aplicação de tópicos contendo óxido de zinco é benéfica. A utilização de antibióticos é desnecessária, excepto se se comprovar a presença de infecção. Melhor que estas medidas de tratamento activo parece funcionar a prevenção. Estes efeitos secundários, tal como ocorre com todos os outros, são função de um binómio agressão/recuperação.

Por um lado, o efeito das radiações sobre as células determina a morte de uma determinada percentagem de células após cada fracção, por outro, as soluções de continuidade no tecido desencadeiam uma série de mecanismos locais, idênticos qualquer que seja a agressão, levando ao recrutamento de células pluripotenciais, cuja descendência tende a suprir as necessidades existentes. Este recrutamento pode levar alguns dias até atingir a sua eficácia máxima, pelo que é frequente, após o agravamento inicial, a estabilização e mesmo a melhoria de sinais e sintomas ao longo da quarta semana de tratamento, mesmo sem qualquer interrupção na radioterapia. Esta situação mantém-se até final do tratamento, se não existirem outras formas de agressão e o estado de nutrição do doente for suficiente para fornecer a energia necessária ao bom funcionamento destes mecanismos fisiopatológicos.
É justamente nos outros processos de agressão que pode ser feita a maior intervenção que, sendo preventiva, é mais eficaz que qualquer terapêutica. O procedimento é válido para qualquer tecido em qualquer ponto do corpo: há que identificar o agressor, potencial ou real, e evitá-lo ou removê-lo. Conhecer a fisiologia local facilita bastante a tarefa.
Constitui agressão para a pele qualquer elemento ou actividade que: favoreça a sua fragilização, seja um dano propriamente dito ou interaja com as radiações potenciando a sua acção. No primeiro ponto, qualificam-se sem dúvida as zonas intertriginosas, onde a humidade local e o atrito constante constituem elementos facilitadores do aparecimento de reacções secundárias à radioterapia. O mesmo raciocínio é aplicável a locais sujeitos a atrito ou traumatismos mais ou menos evidentes, de uma forma rotineira, como seja a pele da face, sujeita ao barbear diário, nos homens, e aos elementos exteriores (radiação solar, frio, calor, humidade, etc.). Dito isto, torna-se evidente que qualquer zona sujeita a um traumatismo, seja ele uma intervenção cirúrgica, um processo infeccioso ou um traumatismo acidental, mecânico, térmico ou químico, é candidata a exprimir reacções secundárias à radioterapia mais facilmente e com maior intensidade. Caindo na última categoria, mas igualmente a temer, está o uso de tópicos, pomadas, cremes, pastas ou loções, que, mesmo não sendo lesivos por si sós, contêm elementos que interagem com a radiação, aumentando a dose absorvida pela pele. O melhor exemplo são os tópicos contendo moléculas de metais (p.e. zinco).

Os feixes de fotões de alta energia, possuem um efeito poupador da pele, por a dose mais elevada ser absorvida, não à superfície, mas a uma dada profundidade, determinada pela energia (efeito de build-up electrónico). Na prática, esta profundidade é de 5mm para a radiação emitida pelo Cobalto-60, atingindo 25mm para feixes de raios X de 25MV produzidos pelos aceleradores lineares, estando qualquer destas distâncias abaixo da camada granulosa da pele, responsável pela sua regeneração, donde o efeito poupador. A utilização de tópicos contendo metaloides na zona de tratamento tem um efeito designado de bolus, aproximando da superfície a zona de maior dose, devendo pois ser cuidadosamente retirados antes da administração da radioterapia.
Relativamente aos anexos da pele, nomeadamente os folículos pilosos, por se encontrarem a uma profundidade maior que a da camada basal da pele, não beneficiam do efeito de build-up. Doses acima de 3000cGy em 3 semanas provocam o desaparecimento temporário do cabelo, na zona irradiada, enquanto que 6000cGy em 6 semanas ou mais determinam uma epilação permanente.
Tórax

No caso particular da radioterapia de tumores da mama, devido à possibilidade de sobreposição de campos a nível do vértice do pulmão, existe uma maior probabilidade de aparecimento de uma lesão a esse nível. Essa lesão é por regra assintomática, podendo evidenciar-se um quadro de pneumonite aguda, controlável com antibióticos e corticoides em doses elevadas. É frequente a persistência de uma zona de fibrose, assintomática, visível na radiografia simples do tórax, numa grande percentagem das doentes submetidas a este tratamento, mesmo não tendo revelado a pneumonite aguda.

Efeitos tardios: Generalidades

As complicações tardias aparecem 4 a 6 meses após a o fim da radioterapia, podendo evoluir no sentido da sua resolução ou agravamento, estabelecendo-se na maioria dos casos entre 18 e 24 meses após o tratamento, variando com os tecidos considerados. São independentes dos anteriores, devem-se a alterações de fundo no tecido conjuntivo e na microvascularização, sendo clinicamente evidentes como fibrose mais ou menos severa ou mais raramente telangiectasias.
Algumas destas complicações tardias não se evidenciam espontaneamente, mas apenas se ocorrer algum traumatismo sobre a zona previamente irradiada, manifestando-se então a insuficiência do tecido para a cicatrização.
Para além do mecanismo referido anteriormente, aponta-se ainda como causa desta ocorrência para a permanência de alterações no genoma celular, motivadas pelas radiações, que não impedindo as funções vegetativas da célula, comprometem definitivamente a sua capacidade de replicação.
O factor mais importante para o aparecimento das complicações tardias parece ser a dose por fracção, para doses totais biologicamente equivalentes. O emprego de uma técnica correcta mantém a taxa de incidência de complicações de grau 3 e 4 (escala da OMS) abaixo dos 5% e 1% respectivamente, sendo o seu tratamento essencialmente conservador.
São tomadas algumas medidas práticas para aumentar a tolerância dos tecidos sãos e, embora o termo se refira por definição a efeitos secundários tardios, algumas destas medidas também alteram os padrões dos efeitos secundários precoces.
Fraccionar a dose, i.é., administrar a dose total em pequenas fracções num período de várias semanas, permite aos tecidos sãos uma recuperação pelo menos parcial das lesões impostas pela radioterapia, que lhes possibilita manterem a integridade do organismo exprimindo alterações a um nível tolerável, e ao mesmo tempo uma redução da massa tumoral.

A unidade de medida usada em radioterapia é o Gray, correspondente à deposição de 1 Joule num quilograma de tecido, sendo mais frequente a utilização do seu submúltiplo, o centigray (1Gy=100cGy). A unidade anteriormente usada, o rad, corresponde a um centigray
O fraccionamento convencional em radioterapia externa consiste na administração de 180-200cGy por dia, cinco dias por semana, sendo este o valor para o qual se consegue o melhor compromisso entre uma taxa relativamente baixa de efeitos secundários tardios e uma taxa de controlo tumoral relativamente elevada. Estudos recentes apontam para uma optimização dos resultados em algumas localizações tumorais, usando mais de uma fracção diária com doses inferiores por fracção, técnica designada de hiperfraccionamento.
Tal como em relação aos efeitos secundários precoces, também aqui as medidas preventivas são de primordial importância. A lenta mas constante perda de eficiência da rede microvascular devida à expressão das lesões radicas pelas células endoteliais, e um depauperamento insidioso da quantidade de fibroblastos no tecido conjuntivo pelas mesmas razões, contribuem para a fragilização dos tecidos, tornando-os susceptíveis de, à mais pequena solicitação, desenvolver situações mais ou menos graves.
As medidas tomadas são no sentido de prevenir ou minimizar os traumatismos locais e variam de acordo com a zona irradiada. Na prática todas as medidas aplicadas durante o tratamento para prevenir ou reduzir a intensidade dos efeitos secundários precoces, podem ser empregues, e mesmo tornadas hábitos."

In Radioterapia e oncologia

29 comentários:

  1. Recomendo a correcção do endereço do site de onde foi retirado este texto:
    http://ruirodrigues.net/radioterapia/

    ResponderEliminar
  2. Obrigada amiga. Faço radio na mama atualmente e gostei de acessar seu blog. Felicidades!Patricia.

    ResponderEliminar
  3. Olá Patrícia
    Que tudo te corra pelo melhor:)
    Felicidades e saúde.

    ResponderEliminar
  4. Sr. bom dia.
    Preciso de uma solução para o agravamento de algumas sessões de rarioterapia que foram executados no pé (calcanhar), de minha mãe,,,Isso ocorreu a 15 anos atraz e até o momento ninguêm consegue orientar a àlgum tratamento para a ferida que ocasionou no calcanhar da mesma. Poderiam me ajudar?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Certa vez foi utilizado açucar branco comum (destes que compramos em supermercado mesmo) para conseguir cicatrizar uma ferida causada por queimadura, por coincidencia tambem localizada no calcanhar. A tal da ferida não fechava nem mesmo com a aplicação da pomada Fibrase. Tive noticia de que houve exito na cicatrização com a aplicação do açucar. Mas é necessário perguntar ao médico da sua mãe se ela pode tentar tambem fazer isso, sem que lhe cause perigo de alguma complicação de saúde. Não tenho a menor idéia do que aconteceria a um diabético se aplicasse açucar em ferida! Não sou médico, apenas trago um relato de uma pessoa que me contou como conseguiu obter a cicatrização da própria ferida que já durava um bom tempinho. Mas, claro, sempre é necessário perguntar ao médico se não trará nenhum risco a sua saúde tentar a cicatrização utilizando o açucar branco comum.
      Um abraço.

      Eliminar
    2. Outra sugestão: Entre no site do Inca - Instituto Nacional do Câncer - que e o hospital de Referência e excelencia Médica para qualquer caso de câncer ( e é totalmente gratuito, já que é público ), pegue o telefone deles e tente saber com eles o que pode ser feito.

      Eliminar
  5. Sr. bom dia.
    Preciso de uma solução para o agravamento de algumas sessões de rarioterapia que foram executados no pé (calcanhar), de minha mãe,,,Isso ocorreu a 15 anos atraz e até o momento ninguêm consegue orientar a àlgum tratamento para a ferida que ocasionou no calcanhar da mesma. Poderiam me ajudar?

    Obs -Wilson Viana (e-mail www.wrs_viana@ig.com.br)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Certa vez foi utilizado açucar branco comum (destes que compramos em supermercado mesmo) para conseguir cicatrizar uma ferida causada por queimadura, por coincidencia tambem localizada no calcanhar. A tal da ferida não fechava nem mesmo com a aplicação da pomada Fibrase. Tive noticia de que houve exito na cicatrização com a aplicação do açucar. Mas é necessário perguntar ao médico da sua mãe se ela pode tentar tambem fazer isso, sem que lhe cause perigo de alguma complicação de saúde. Não tenho a menor idéia do que aconteceria a um diabético se aplicasse açucar em ferida! Não sou médico, apenas trago um relato de uma pessoa que me contou como conseguiu obter a cicatrização da própria ferida que já durava um bom tempinho. Mas, claro, sempre é necessário perguntar ao médico se não trará nenhum risco a sua saúde tentar a cicatrização utilizando o açucar branco comum.
      Um abraço.

      Eliminar
    2. Outra sugestão: Entre no site do Inca - Instituto Nacional do Câncer - que e o hospital de Referência e excelencia Médica para qualquer caso de câncer ( e é totalmente gratuito, já que é público ), pegue o telefone deles e tente saber com eles o que pode ser feito.

      Eliminar
  6. como evitar as dores nas pernas inclindo joelhos, provadas pela qimioterapia.

    ResponderEliminar
  7. Anónimo #1
    Não o consigo ajudar, apenas aconselho a falar com o médico que acompanha a sua mãe.
    Tudo de bom:)

    ResponderEliminar
  8. Anónimo #2
    Em relação às dores no corpo provocadas pela quimio, posso dizer, por experiência própria (faz em agosto 3 anos que terminei a quimio) que as dores vão desaparecendo com o passar do tempo, mas de vez em quando estão lá. Quando eram mais fortes o meu oncologista passou uns analgésicos de SOS. Tudo de Bom:)

    ResponderEliminar
  9. ha 4 anos atraz tive um leiomiossarcoma no utero,fiz 28 radioterapia, e agora estou sentindo muita dor no joelho e li que a radioterapia pode dar cancer secundario, sera que é verdade pois estou sentindo muita dor estou com medo

    ResponderEliminar
  10. Anónimo #3
    Olá, a radio pode causar muitos efeitos, mas o melhor é falar com o seu oncologista/médico acompanhante o mais depressa possível, se Deus quiser estará tudo bem e ficará descansada:)

    ResponderEliminar
  11. obrigado pela resposta, assim que sair o resultado do exame te escrevo bjsss fq com Deus

    ResponderEliminar
  12. oi é normal depois da radio ter muito ardor ao urinar e numero 2?

    ResponderEliminar
  13. Olá, não o posso ajudar, espero que já tenha ido ao médico e que tudo esteja a correr bem.

    ResponderEliminar
  14. oi, fui ao oncologista ele me sugeriu uma tomografia do abdomem total para ver se esta tudo bem, aparentemente ele disse que esta, mas me disse que a cirurgia de 4 anos atraz foi incompleta, teria que ter tirados os ganglios, estou com medo pois ele disse que dependendo do resultado da tomografia ou ter que fazer outra cirurgia, tchau obrigado bjssss

    ResponderEliminar
  15. Olá
    Espero que o resultado da TAC seja o melhor possivel! Força!
    jokas
    Gatapina

    ResponderEliminar
  16. minha mae fez a raidioterapia na mama e ela queixa de uma dor no local da radio que nunca passa, isso e normal

    ResponderEliminar
  17. minha mae fez a raidioterapia na mama e ela queixa de uma dor no local da radio que nunca passa, isso e normal

    ResponderEliminar
  18. Olá, acabei radioterapia com bólus há cerca de 4 meses e não está mesmo fácil... agora há uma sensação de ardor com bastante desconforto por baixo da axila, no tórax e a zona do omoplata...do lado irradiado (esquerdo). Quando inspiro e estico o braço sinto mesmo a pele "esticar" e só faltava uma gastrite, que não sei se está ou não relacionada com a radioterapia... Mesmo o braço "prende" e como tal dói. Basta para isso haver alterações climáticas ou alguns esforços suplementares que dantes eram coisas banais...de 58 kg dos tempos antes de todo este processo já vão 12 kg... Ninguém nos diz que isto pode acontecer ou se é normal... só sei dizer que é cansativo e desgastante.Espero que passe pois nem a prótese consinto sobre a pele...

    ResponderEliminar
  19. queria, saber,se fazendo radioterapia,posso ir a praia!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    ResponderEliminar
  20. Olá
    Não se pode apanhar calor ou sol quando se está a fazer radio.

    ResponderEliminar
  21. O Instituto Nacional do Câncer - INCA - é um excelente hospital para tratar qualquer tipo de câncer. Ele é Referência. Totalmente gratuito. Dão até os remédios de graça. Tratam SEM FAZER NENHUMA DIFERENÇA não somente os pobres, como também as pessoas pertencentes a classe média e alta, pois é referência nesse tratamento, e o direito à vida e à saúde é de todos,independentemente de classe social ou econômica.
    Trago esse relato por que sei o tamanho da preocupação de todas as pessoas que tem um diagnostico de cancer com o custo do tratamento.
    No INCA eles tratam de graça e sem distinção a todos os pacientes.

    ResponderEliminar
  22. tou a fazer radioterapia, ao pescoço tenho um tumor faco tambem quimio) precisava de saber se a radioterapia faz perder peso

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. olá, eu não perdi peso, mas pode fazer esse efeito, é melhor perguntar aos técnicos da radio se consideram essa perda de peso normal, eles saberão o que fazer.
      Tudo de bom!

      Eliminar