segunda-feira, 3 de março de 2008

Professores: e a formação?

Artigo retirado da revista VISÃO:

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Numa altura em que os professores se preparam para contestar nas ruas o sistema de avaliação dos docentes proposto pelo Governo, a VISÃO lança o debate, partindo de um texto de opinão de Daniel Ricardo. Veja o que dizem os docentes e participe.

Daniel Ricardo - 29 Fev 08
José Carlos Carvalho

Independentemente do mérito ou do demérito das políticas educativas do Executivo Sócrates, plasmadas em diplomas legais como os que regulam a carreira docente, a avaliação de desempenho e a gestão escolar, entre outros, uma coisa salta à vista: a ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues pôs a carroça à frente dos bois.

Com efeito, sem bons professores não há sistema de ensino que funcione a contento. Por isso, a prioridade do Governo devia ser (ou ter sido) a de criar condições para uma adequada preparação dos professores, visando a boa execução das suas importantíssimas, delicadas e múltiplas tarefas, de cujo êxito ou inêxito depende o futuro do País.

Numa entrevista que me concedeu em 2002, a propósito da publicação do seu livro As Políticas de Educação em Discurso Directo, António Teodoro, especialista em Ciências da Educação, já dizia que a escola está a responder mal aos problemas levantados pela massificação, o principal dos quais, em sua opinião, reside na diversidade cultural. «A escola», afirmou ele, então, «foi criada para uniformizar, de acordo com os padrões do Estado-Nação. Em primeiro lugar, a língua: na escola portuguesa, não se permitia a ninguém que se exprimisse, por exemplo, em mirandês, ainda que essa fosse a sua língua materna; em segundo lugar, os hábitos culturais, impondo-se às crianças do campo uma cultura urbana, ou seja, tomando-se como modelo o aluno da classe dominante, a que os americanos chamam WASP (White, Anglo-Saxon, Portestant) e que nós, por analogia, poderíamos denominar BLC (Branco, Luso, Católico). O que se pedia aos professores era, pois, que ensinassem muitos como se fossem um só. Agora, pede-se-lhes que tenham em conta as diversidades culturais, que as respeitem e as ponham a dialogar. Mas eles não estão ainda preparados para essa grande alteração do paradigma escolar.»

Não surpreende que assim seja. Na perspectiva da História da Educação, foi muito rápida a transformação das populações escolares, antes homogéneas, em multidões de variadas origens não apenas culturais mas também étnicas e sócio-económicas, num contexto «de mudança de valores, em que o dinheiro e o lazer estão a ganhar peso, em prejuízo do conhecimento e da leitura, e instituições de socialização, como a Igreja e a família, se confrontam com uma profunda crise», conforme nota António Teodoro, naquela entrevista. O professor tornou-se, na verdade, uma espécie de «criada para todo o serviço» Além de ensinar, tem de ser pai ou mãe, psicólogo, assistente social, polícia. Isto é, atribuem-se à escola mais e mais responsabilidades, nas quais se diluem as funções docentes. «Quando se acumulam muitas e diversas competências, perde-se a noção de qual é a principal», concluiu António Teodoro.

Uma grande trapalhada

Neste contexto, impõe-se perguntar: Que modelos de formação profissional (estágio) tiveram os professores actualmente em exercício? Que componentes científicas, sociológicas e pedagógicas fazem parte desses modelos? Quem deu aos docentes formação profissional tinha para tal a preparação necessária, ou seja, era professor profissionalizado?

Além de se encontrarem em vigor numerosos modelos de formação, com conteúdos variados, num quadro de grande confusão, muitos formadores, nomeadamente os docentes universitários que dirigem e orientam os estágios integrados, não receberam formação profissional.

Nos últimos 34 anos, nunca, aliás, a preparação para a docência dos candidatos a professores constituiu a principal preocupação do legislador - ou seguiu a reboque das alterações introduzidas por decreto-lei no sistema educativo ou, pura e simplesmente, não foi contemplada pela legislação, o que consentiu que entrassem para a profissão docentes sem preparação profissional. Isto é: os governos que, naquele período, se sucederam no poder foram alterando, em certos casos profundamente e sempre por decreto, as práticas, sem cuidarem de preparar os professores para as mudanças exigidas pelos novos normativos.

Alguns exemplos ilustram o caos que se instalou no sector da formação:

- o Decreto-Lei 43/89, de 3 de Fevereiro, instituiu, nas escolas, a metodologia de projecto (Projecto Educativo de Escola);

- segundo o Decreto-Lei 269/89, de 29 de Agosto, a Área Escola é desenvolvida de acordo com a metodologia de projecto;

- desde que o Decreto-Lei 269/89 foi revogado na sua aplicação ao Ensino Básico pelo Decreto-Lei 06/01, de 18 de Janeiro, que o Projecto Curricular de Escola , o Projecto Curricular de Turma e a Área de Projecto se institucionalizaram;

- depois, por força do Decreto-Lei 74/04 de 26 de Março , o Decreto-Lei 269/89 deixou de se aplicar igualmente ao Ensino Secundário, passando a Área de Projecto a ser uma disciplina do 12.°ano.

Quem consegue entender-se, no meio desta teia de esquemas normativos acerca dos quais raros são os professores que estão convenientemente informados para poderem actuar tanto a nível da gestão curricular em projecto como no campo da gestão de sala de aula?

Finalmente, para não irmos mais longe, o Decreto-Lei 06/01 relançou uma série de disciplinas curriculares não disciplinares que qualquer professor pode ser chamado a leccionar – Área de Projecto (AP), Estudo Acompanhado (EA) e Formação Cívica (FC). De onde se induz que os professores, por exemplo, de Inglês e de Matemática têm de saber ensinar, não apenas Inglês e Matemática, mas também AP, EA e FC. Só que não tiveram, para isso, formação profissional apropriada.

Deste modo, à lista de tarefas que, na opinião de António Teodoro, os professores portugueses se vêem obrigados a desempenhar, temos de acrescentar, além da normal preparação académica para o ensino das disciplinas em que se especializaram, a constante acumulação de competências e saberes relativos, pelo menos, a

- metodologia de projecto;

- liderança e supervisão pedagógicas;

- ensinar os alunos a estudar;

- adaptar à escola o currículo e os programas nacionais;

Por quem e como são os professores preparados para tão complexa missão?

E, neste quadro, que justiça haverá na respectiva avaliação?

Use o espaço de comentário em baixo para dar opinião ou, se preferir, envie-nos um texto para o seguinte e-mail: opiniao@visao.pt

1 comentário:

  1. Vi este comentário numa notícia do público, está tudo dito!

    Avaliação dos Professores

    Tem-se falado muito e mal da avaliação dos professores. Nota-se que pouca gente sabe do que se trata na realidade.
    Para defender o ponto de vista do governo, diz-se que não havia até agora... O que não é de todo verdade. Até agora, os professores tinham de apresentar um relatório crítico de actividade, que era analisado por uma comissão de avaliação, e de fazer formação na qual tinham de ser aprovados. Se não houvesse anormalidades, os docentes teriam "Satisfaz". Se o professor não tivesse cumprido as suas funções ser-lhe ia atribuída a menção de "Não Satisfaz". Para obter a classificação de "Bom" e de "Muito Bom" teria de se submeter a um processo com várias etapas de burocracia. Existia um sistema de avaliação, ao contrário do que o Primeiro-Ministro defende ao tentar, mais uma vez, enganar os portugueses, tentando colocá-los contra os "professorzecos" (como a Ministra da Educação os apelida no Parlamento). O Primeiro-Ministro podia dizer que não concordava com ele, mas não pode continuar a mentir, dizendo que não havia.
    Passando ao novo modelo de avaliação de desempenho, que não é feito para avaliar os professores, mas para evitar que eles progridam e criar um sucesso fictício e estatístico para europeu ver. Todos reconhecem que não é um modelo perfeito, mas acham que mais vale um modelo imperfeito, subjectivo e injusto do que dialogar com os professores até se criar uma avaliação justa. Defendem que num país em que reina a injustiça não vale a pena avaliar os professores com equidade e justiça.
    É um sistema injusto e impraticável, por vários factores:
    1.º Os professores titulares e avaliadores foram escolhidos pelos anos de serviço e não pelo mérito nem pela competência (onde está a preocupação com o mérito e com a excelência?);
    2.º Os professores que vão avaliar não têm formação na supervisão de aulas;
    3.º Teremos professores de Francês a avaliar aulas de professores de Inglês, e de Educação Tecnológica a avaliar docentes de Educação Física ou vice-versa;
    4.º Em muitos casos, os professores avaliados têm muito mais formação do que os avaliadores;
    5.º Os professores titulares vão avaliar se os outros recorrem às novas tecnologias e muitos dos avaliadores não sabem enviar um mail, ligar um computador ou o que é um powerpoint;
    6.º Os titulares vão avaliar o sucesso dos outros, quando, em grande parte dos casos, são eles que têm uma maior percentagem de insucesso;
    7.º Os avaliadores vão avaliar professores de níveis de ensino diferentes daqueles que estão habituados a leccionar, sendo o discurso do docente obrigatoriamente distinto;
    8.º Os professores perderão autoridade na sala de aula, perante os seus alunos, no dia em que entrar um titular para avaliar o professor;
    9.º Só os resultados dos professores de Língua Portuguesa e de Matemática poderão ser confrontados com os dos Exames Nacionais do 3º Ciclo, o que é uma injustiça para os docentes dessas disciplinas;
    10.º Os professores só ficarão com as turmas com alunos com mais dificuldades, caso não possam fugir, pois terão famílias para sustentar e empréstimos para pagar;
    11.º Um professor que queira ser honesto e exigente será avaliado negativamente e corrido do ensino;
    12.º Serão premiados os professores de disciplinas que não dêem testes;
    13.º Se um professor tiver o azar de ter um aluno que abandone a escola para emigrar ou que os pais não tenham condições para o manter a estudar, será penalizadíssimo na sua avaliação;
    14.º Se um docente tiver o azar de perder um familiar próximo ou a sorte de ter um filho, será gravemente penalizado na sua avaliação, se faltar os dias a que tem direito por lei;
    15.º Se acompanhar alunos de algumas turmas numa visita de estudo e deixar outras turmas com substituição, também é considerada falta de assiduidade às actividades lectivas, imagine-se!!!!
    16.º Como os avaliadores e os avaliados já leccionam juntos há muito tempo, há colegas de trabalho que não se falam e os titulares podem aproveitar para se vingar e estragar a vida aos avaliados...
    17.º Numa primeira fase, os titulares não serão avaliados por ninguém (onde está a excelência?);
    18.º Não vale a pena ter "excelente" ou "muito bom", porque já não haverá vagas para titulares, quando nos for permitido tentar subir na carreira;
    19.º Os resultados da avaliação dos alunos serão comparados entre disciplinas com competências totalmente diferentes. Por exemplo, ao comparar-se os resultados de Matemática com os de Educação Física, descobre-se facilmente qual o professor que sairá penalizado e terá de ir para o desemprego, se obtiver duas avaliações "Regulares";
    20.º Os professores serão avaliados pelo recurso às novas tecnologias e as escolas não têm projectores nem telas nas salas, as tomadas não funcionam, a electricidade desliga-se constantemente, nem há extensões suficientes!
    21.º Os docentes serão avaliados pelas fichas formativas que forneçam aos alunos e só podem tirar fotocópias de testes de avaliação sumativa e, quando as escolas forem entregues às câmaras, nem a isso terão direito.
    Estas são algumas situações reais, haverá muitas outras que eu desconheço. Só um louco pode achar isto positivo, a não ser que se queira destruir de vez com o ensino público, enviando todos os professores para o desemprego.
    O que se conseguiu até agora com o novo modelo de avaliação:
    a) Há um constrangimento entre os professores titulares e os "professorzecos";
    b) Não há diálogo entre os docentes, havendo um "ruidoso" silêncio sepulcral na sala de professores;
    c) Não há partilha de materiais por causa da competição, pois as quotas, que ainda não foram publicadas, serão muito reduzidas;
    d) Estão todos desmotivados;
    e) Os professores estão a entrar na escola às 8 horas e 30 minutos e a saírem depois das 22 horas, sem que ninguém lhes pague horas extraordinárias, a analisar grelhas, indicadores e instrumentos de avaliação, como se estivessem a cavar a sua própria sepultura;
    f) Não há tempo para preparar aulas, desenvolver estratégias diferenciadas, elaborar e corrigir testes.
    Se nos aspectos que eu referi, houver algo que não seja correcto, agradeço que me provem o contrário pelo e-mail: salvarescola@gmail.com. É evidente que esta avaliação só terá efeitos em 2009, porque as injustiças e os processos em tribunal serão tantos que alguém acordará e mudará tudo outra vez, mas, até lá, seremos umas cobaias de algo que sabemos que foi feito por alguém que não conhece a realidade das escolas.
    Sinceramente, digam-me se os professores conscientes não terão direito há indignação.
    Gostava de poder explicar estes aspectos ao Primeiro-Ministro e propor um modelo de avaliação mais simples, justo e eficaz, mas ele não me recebe, porque não gosta de ouvir quem está no terreno e porque não sou militante socialista. Sou um reles "professorzeco", como nos qualificou a Ministra, mas vindo dela só pode ser um elogio, porque eu sei desde muito novo que os Açores fazem parte da República Portuguesa.
    Já que a melhor arma é a escrita vou escrever tanto até ser ouvido por quem possa salvar a Educação. Será que ainda há força para lutarmos unidos?

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